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Publicado em: 09-10-2017

Horta na escola melhora ensino de Ciências, alimentação e consciência ambiental



por Tulio Kruse

Quase todos os dias, alunos do 5º ano do ensino fundamental vão a um terreno ao lado da Escola Estadual Professor Cândido de Oliveira para ver o crescimento de sua pequena lavoura em Parelheiros, no extremo sul da capital. Preparam a terra, plantam sementes, regam as mudas e, periodicamente, retiram as ervas daninhas que nascem ao redor das hortaliças. Quando é tempo de colheita, levam o alimento, que vira ingrediente para as refeições na escola, diretamente à cozinha.

As atividades na horta, com crianças de 7 a 11 anos, serve para melhorar as aulas de Ciências da Natureza e desenvolver conteúdos interdisciplinares ligados a uma alimentação mais saudável e temas relacionados à sustentabilidade. Assim como na Cândido de Oliveira, mais de 1,2 mil escolas públicas no Estado de São Paulo têm espaços semelhantes para cultivo de legumes, verduras, frutas e temperos, que servem como uma espécie de “laboratório vivo” para professores. Em colégios particulares, as hortas também são cada vez mais comuns.

“Antes, eu só pensava em doce, em comer besteira, e depois que comecei a experimentar a comida da horta, vi que os alimentos saudáveis não são tão ruins”, conta a aluna Giovanna Hessel Nunes, de 11 anos. Como outros estudantes do 5º ano, ela participa do grêmio estudantil na unidade e é responsável por preparar apresentações sobre os benefícios de produtos orgânicos, como os cultivados ali, e sobre cuidados com a natureza. Os trabalhos são apresentados às crianças mais novas da unidade. “Quando eu falo com eles sobre alimentação saudável, eles ficam muito encantados. Eu falei que eles precisam experimentar coisas novas”, diz Giovanna.

O plantio também ajuda nas aulas da E. E. Clorinda Danti, no Butantã, na zona oeste de São Paulo. Ali, as crianças aprendem sobre a importância da incidência de luz, sombra e água para o crescimento da horta e também como aproveitar melhor restos de alimento, como cascas de banana e ovo. O terreno tem um pequeno minhocário para compostagem, onde se produz adubo orgânico a partir de sobras do que é consumido no restaurante.

No 4º e no 5º ano o espaço serve também para exercícios de Matemática. Os alunos medem a largura e o comprimento dos canteiros e calculam a distância ideal entre cada pé de alface. “Com as atividades na horta eles conseguem ser mais organizados e estão mais cuidadosos porque trabalham a interação e a cooperação. Eles se ajudam muito”, conta professora Silvana Costa, que dá aula para o 1º ano do ensino fundamental. “Há uma mudança, sim, do comportamento, e essa criança também começa a se alimentar bem.”

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Os alunos do Marista Arquidiocesano aprendem a cuidar adequadamente das plantas na escola e a fiscalizar o descarte correto de lixo. Foto: ARI FERREIRA/ESTADÃO

Ciclo sustentável. No colégio Marista Arquidiocesano, na zona sul, a horta escolar faz parte de um ciclo de educação sustentável projetado para que nada seja desperdiçado. A ação começa na separação completa do lixo produzido na escola. Com a ajuda de líderes de turma que inspecionam todas as classes, tudo aquilo que é reciclável destina-se a uma empresa que faz coleta seletiva e encaminha os resíduos. Já o lixo orgânico é todo processado internamente: a escola tem uma composteira automática que, em cerca de uma hora, transforma os restos de alimento em adubo.

É esse adubo que abastece os jardins e as hortas do colégio. São cerca de 900 mudas distribuídas em canteiros suspensos e em um pequeno terreno, que também serve para aulas de Ciências. Após a colheita, os alunos simulam uma feira livre e negociam as beterrabas, alfaces, cenouras, escarolas e temperos que plantaram, em uma atividade da aula de Inglês.

O colégio produz, em média, 90 quilos só de lixo orgânico por dia. A maior parte do adubo fica guardada. Parte dessa produção já foi vendida para os pais, na última festa junina da escola, e a direção estuda como vender o resto do excedente ao longo do ano. Segundo a direção, que deu início ao projeto em junho, o maior saldo da iniciativa é a consciência dos pequenos sobre o destino correto do lixo.

“Nós temos que deixar um legado para as crianças que passam por aqui”, diz o diretor-geral do colégio, Valentin Fernandes. “Se você der o destino correto de seu lixo, se você souber usar apenas a quantidade necessária de água, se você disser não ao desperdício, e conseguir colocar isso na cabeça de quem está crescendo, vai ficar para a vida toda. É mais fácil incutir essas ideias nas cabeças das crianças do que nos mais velhos.”

As crianças de 5 e 6 anos da turma 5C, do ensino infantil, se tornaram inspetores implacáveis do lixo na escola após o início do projeto. Os alunos vistoriam praticamente todas as lixeiras do colégio para se certificar que a sujeira tenha destino correto. Todos os dias eles observam todo o lixo que está fora do lugar entre sua casa e a escola e fazem um relato ao chegar na sala de aula – espontaneamente, sem que a professora pergunte.

“Eu já vi um plástico de suco escondido debaixo do degrau”, conta Davi Nery, de 6 anos. “Estava bem escondidinho.” O trabalho dedicado dos alunos resultou em um momento de comoção na escola.

Na sala dos professores, os pequenos fiscais encontraram um monte de papel molhado na lixeira em que deveria haver só lixo orgânico, e comunicaram indignados a irregularidade à diretoria. Um pequeno palco foi então montado na sala, e um microfone entregue às mãos das crianças da turma 5C, para que dessem uma palestra aos adultos.

“Eu disse que eles precisam jogar o lixo no lugar certo, e pedimos para ensinarem os alunos deles”, diz Theo Reis, de 5 anos. A campanha parece ter dado resultado. Segundo relatos de professores, a quantidade de lixo encontrada no pátio após o recreio diminuiu. “Melhorou um pouquinho, e tem que melhorar mais, muito mais”, reforça Juliana Gouvêa, de 5 anos.

(Foto da chamada: Reprodução/Estadão/Ari Ferreira)

* Publicado em: Estadão